Fichte, escritor alemão, homenageado em várias exposições pelo Brasil

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Implosão: Trans(relacion)ando Hubert Fichte - Obra de figura chave do underground literário alemão dos anos 1960 chega finalmente ao Brasil, com lançamento de livro e exposição que reúne trabalhos inspirados nas viagens erótico-etnográficas do escritor pelo país

Fichte gostava de sexo. E gostava de viajar. Gostava particularmente do Brasil e dos brasileiros. Um dos maiores autores cults alemães, poeta maldito e cronista do submundo de Hamburgo, Hubert Fichte (1935-86) ganha exposições de arte e edições de sua obra em diversos países. Um grande projeto internacional, concebido por Anselm Franke e Diedrich Diederichsen, lançado na Alemanha pela Haus der Kulturen der Welt (HKW) em parceria com o Goethe-Institut, leva o legado de Fichte às cidades que ele visitou e sobre as quais escrevia: Lisboa, Salvador, Rio de Janeiro, Dakar, Nova Iorque, Santiago do Chile, entre outras. No Brasil, a mostra “Implosão: Trans(relacion)ando Hubert Fichte”, com curadoria do filósofo Max Jorge Hinderer Cruz e do artista Amilcar Packer, será aberta na capital baiana em 7 de novembro, no Museu de Arte Moderna da Bahia, seguindo até 17 de dezembro; e, nas terras cariocas, no dia 25 de novembro, no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, onde permanece até 13 de janeiro de 2018. Em ambas as cidades, será lançado um dos livros seminais para compreensão do trabalho do autor, “Explosão. Romance da Etnologia”, com tradução para o português de Marcelo Backes e selo da editora Hedra.

A mostra “Implosão: Trans(relacion)ando Hubert Fichte” reúne trabalhos de artistas contemporâneos, principalmente brasileiros, convidados a incursionar no universo de Fichte, desdobrando-o em criações inéditas ao lado de trabalhos históricos. A exposição propõe um questionamento sobre os olhares, posições, preconceitos e lugares de fala do poeta libertário alemão, judeu, homossexual, que procurou no Brasil novas alianças minoritárias, tanto nos terreiros quanto nos banheiros públicos. Participam Ayrson Heráclito (BA), Coletivo Bonobando (RJ), Letícia Barreto (SP), Michelle Mattiuzzi (SP/BA), Negro Leo (MA), Pan African Space Station (África do Sul) e Rodrigo Bueno (SP). Além disso, a mostra apresentará instalações e obras de arquivo que se alinham com o próprio olhar de Fichte em seu contexto histórico, assinadas por Hélio Oiticica, Leonore Mau e Alair Gomes.

Juntamente à edição do livro de Fichte em português, será também lançada uma publicação de título homônimo à exposição, editada por meio de uma colaboração entre a dupla de curadores da mostra e a pesquisadora Cíntia Guedes. São reunidos textos, conversas e entrevistas com alguns dos artistas participantes, assim como com figuras relevantes do cenário político e intelectual brasileiro, como Indianara Siqueira, a performer e ensaísta Jota Mombaça, Mateus Ah, a fotógrafa e diretora de cinema Vanessa Oliveira, o antropólogo Sérgio Ferreti, o Coletivo Bonobando, a antropóloga e diretora de teatro Adriana Schneider e o músico Negro Leo.

Em Salvador, o projeto ainda se vincula ao XIII Panorama Internacional Coisa de Cinema, onde irá exibir quatro foto-filmes de Fichte e Leonore Mau, no dia 9 de novembro. A sessão será acompanhada de mais um momento de lançamento do livro “Explosão. Romance da Etnologia”, com uma leitura do Coletivo Bonobando.

SOBRE HUBERT FICHTE (21 de março de 1935, Perleberg/Alemanha – 8 de março de 1986, Hamburgo/Alemanha) – Escritor alemão, bi-/homossexual, de pai judeu e criado durante a Segunda Guerra, é uma figura chave do underground literário alemão dos anos 1960, também frequentemente relacionado ao universo beatnik. Após a fama do seu romance “Die Palette” (1968), decidiu viajar pelo mundo seguindo as rotas das diásporas africanas pelo Senegal, Benin, Nigéria, Togo, Haiti, República Dominicana, Granada, Venezuela, EUA e, sobretudo, pelo Brasil, escrevendo seu ciclo inacabado de 18 romances e ensaios sob o título “A História da Sensibilidade”. Fichte viveu os últimos anos de sua vida com HIV/AIDS, principalmente em Hamburgo, e faleceu em 1986 depois de complicações de saúde.

No Brasil, circulou principalmente pelo Rio de Janeiro, Salvador e São Luís, por três extensos períodos entre 1969, 1971-72 e 1981-82, desenvolvendo o que chamou de “antropologia experimental” ou “etnopoesia”. Percebido como escritor polêmico, Fichte sem dúvida fez sua contribuição ao mundo literário por meio de um impressionante compêndio de pesquisas sobre as religiões afro-americanas no Brasil, como o candomblé e o Tambor de Mina, e ao mesmo tempo desenhou vastas cartografias do submundo gay nas metrópoles brasileiras, durante o período militar. Dessa interseção complexa nasce uma “outra” poesia, uma “outra” etnografia, uma “outra” forma de jornalismo e comentário político; uma magnífica obra por descobrir e que ao mesmo tempo exige “outras leituras” e um desafio “transrelacional” para o leitor contemporâneo, ainda mais para o leitor brasileiro em 2017.

SOBRE O LIVRO – “Explosão. Romance da Etnologia” é um dos romances centrais da “História da Sensibilidade” fichteana. O livro resume as viagens e andanças de Fichte pelo Brasil – Rio de Janeiro, Salvador, São Luís, Recife, Belém, Manaus –, visitando terreiros, mães de santo, celebridades da antropologia, banheiros públicos, os “cinemões” da época – lugares de encontro gay –, ladeiras estreitas e praças escuras. No Brasil, ele tem sua primeira edição pela editora Hedra, com tradução do escritor, professor, tradutor e crítico literário Marcelo Backes.

SOBRE O PROJETO – O grande projeto internacional, batizado como “Hubert Fichte: amor e etnologia”, foi concebido por Anselm Franke, curador do departamento de artes plásticas da HKW, e o autor e crítico Diedrich Diederichsen, que respondem pela direção artística da iniciativa. Sua primeira exposição foi inaugurada em 23 de setembro de 2017 em Lisboa, Portugal. Depois do Brasil, seguirá para Chile, Senegal e EUA, terminando na Alemanha, em 2019. Cada mostra que compõe o projeto geral conta com curadores locais, gerando, assim, exposições singulares, que levam em consideração as especificidades de cada contexto, assim como as particularidades dos escritos de Fichte em relação a cada cidade.

“Hubert Fichte: amor e etnologia” é uma realização da Haus der Kulturen der Welt (HKW), Berlim, e do Goethe-Institut, em parceria com a Forberg-Schneider Stiftung e S. Fischer Stiftung, tendo apoio institucional do Museu de Arte Moderna da Bahia, vinculado ao Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC) e Secretaria de Cultura do Governo do Estado da Bahia (SecultBA), e do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, Secretaria Municipal de Cultura e Prefeitura do Rio de Janeiro.

FICHA TÉCNICA Curadoria: Amilcar Packer e Max Jorge Hinderer Cruz
Artistas Convidados: Ayrson Heráclito (BA), Coletivo Bonobando (RJ), Letícia Barreto (SP), Michelle Mattiuzzi (SP/BA), Negro Leo (MA), Pan African Space Station (África do Sul) e Rodrigo Bueno (SP)
Obras históricas: Alair Gomes, Hélio Oiticica e Leonore Mau
Coordenação de produção: Luisa Hardman Coedição: Cintia Guedes
Realização: Haus der Kulturen der Welt (Casa das Culturas do Mundo) e Goethe-Institut
Parceria: Forberg-Schneider Stiftung S. Fischer Stiftung
Apoio institucional em Salvador: Museu de Arte Moderna da Bahia/ Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia/ Secretaria de Cultura do Governo da Bahia

SERVIÇO- “IMPLOSÃO: TRANS(RELACION)ANDO HUBERT FICHTE” 
SALVADOR»» Local: Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA) (Av. Contorno, s/n – Solar do Unhão)
Abertura: 7 de novembro de 2017, às 18h Entrada franca | Classificação etária: 12 anos
Com performance de: Michelle Matiuzzi, Negro Leo e convidados, Coletivo Bonobando
Exibição da obra “Neyrótika”, de Hélio Oiticica Período expositivo: 8 de novembro a 17 de dezembro de 2017

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